sábado, 28 de abril de 2018

Viagem MG: São João Del Rey 28/04/18

 Depois de um dia de viagem, parando em algumas cidadezinhas de Minas, chegamos em São João de Rey - cidade que não visitava há muitos anos. Continua linda, fresca e hospitaleira.

 A gastronomia continua sendo o ponto forte da cidade, assim como as belíssimas igrejas no estilo barroco. Igrejas do início da colonização, ornadas com muito ouro extraído das Minas Gerais.
Muito bom viajar com meus amigos!!!!
Estava precisando de um respiro...

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Visita MIC & MRP


Que bom é poder recebê-los

Que bom é poder contar com essa amizade!!!

Sejam bem vindos, Inês e Marcelo:



Un gusto poder tenerlos en mis cuidados!!!!
Sean bienvenidos siempre, aqui también teneis una casa!!!! Sepas que estaré siempre aqui y que mamá los quiere mucho!!!

O que será de 2016 e 2017? Histórias minhas, histórias nossas... Waltinho e Andreia Sieczko


Até hoje eu não sabia o que escrever a respeito de 2016 e o ano de 2017. Mas hoje, com certeza, afirmo que em 46 anos;  foram os anos mais difíceis da minha vida. Foram meses de aprendizado, de luta, de dor, de tristeza, desespero, fé, oração, grandes batalhas... lágrimas e saudade. Em maio de 2016, meu irmão, meu primeiro amigo, minha base, minha referência, minha maior herança, meu caçula, meu bebê, meu Manequinho, o meu irmão Waltinho descobriu um câncer em estágio IV. Até então eu não tinha a mínima idéia do que isso pudesse significar: um grau altíssimo de malignidade, uma metástase primária no pâncreas, e já afetando parte do fígado. Não... não é, não pode, não é possível... nunca nem ninguém em minha família, nem por parte de pai, nem por parte de mãe, nunca, ninguém jamais teve contato com essa doença, não pode ser, impossível. Então o que era impossível aconteceu, e começamos a estudar para conhecer do que se tratava essa doença, o que esperar, como lutar, quais as chances de cura ou então sobrevida. O desespero veio depois da negação - porque eu não conseguia acreditar que meu irmão estava com câncer. Esta palavra ainda hoje me causa enjoo... vai me causar, sempre... volta tudo, num piscar de olhos, todo o sentimento cai em mim, como uma tonelada de pedra maciça... Meu irmão já tinha tido 2 pancreatites nos 2 anos anteriores, era diabético, mas jamais, em hipótese alguma eu pensei que o pior pudesse acontecer ao meu irmão caçula. Graças a Deus, por intermédio da Graça e Misericórdia de Jesus e Nossa Mãe Maria, eu estava pagando o plano de saúde do meu irmão... um plano regional, não era o mais caro,  mas que podia oferecer o conforto de um atendimento particular. Naquele momento inicial, eu acreditava com muita fé que nunca, jamais eu perderia meu irmãozinho. Waltinho começou o tratamento de quimioterapia, e Jesus, como era triste saber que meu irmão estava passando por aquele tratamento tão cruel, meu neném se sentia mal, tão enjoado, cada vez mais magrinho, que dó, meu Deus. Que vontade de botar meu irmão no meu colo, e protegê-lo dessa doença, tomar pra mim o seu lugar, porque ver meu irmão caçula, tão lindo definhando, foi como ver eu mesma, ou um, filho (aquele que eu não tive), um pedaço de mim perdendo o viço da vida. Não tenho filhos, mas tenho um amor enooooorme pelo Waltinho. Ele saiu da barriga da mamãe para mim. Meu irmãozinho era meu desde o momento que nossa mãe chegou com ele da maternidade e o deu pra mim. Era meu. Meu irmão, meu Manequinho, meu bebê. Nunca senti ciúmes de filha mais velha, porque nunca houve motivos que pudesse justificar ter ciúme do que é seu. E minha mãe o deu para mim. Ponto!
Waltinho sempre foi meu boneco preferido, ele destruía minhas outras bonecas, e eu dava cascudos nele. Mas nunca deixei que ninguém mais desse cascudos nele. Na escola, ele chamava a irmã mais velha dele (" Eu ") pra bater nos coleguinhas que mexiam com ele, ou que pegavam os brinquedos dele e não devolviam. Eu me sentia tão bem, tão valente protegendo meu irmão, que eu cresci assim... Eu era forte e valente, o protegia de qualquer menino da idade dele - ou da minha... não tinha conversa. Ele era meu irmão caçula e minha missão era cuidar dele. Quando nossos pais se separaram, nossa mãe virou nosso pai, e eu meio que virei a nossa mãe. Minha mãe estudava e trabalhava, e Waltinho e eu íamos pra escola juntos, e de tarde eu tomava conta dele e de mim. Fazia a comida, pra minha mamãe levar na marmita e para nós, eu tinha 9, 10 anos e passamos por momentos difíceis naquela época. Meu pai nunca ajudou, nunca pagou pensão alimentícia para mim e para o Waltinho. Minha mãe o executou algumas vezes na justiça - Vara de Família -  mas ele preferia ir preso que pagar comida para os 2 filhos que eram dele. Isso fez de nós, trabalhadores precoces (Graças a Deus). Minha mãe foi uma grande guerreira, e nos ensinou que as lutas, nos fazem fortes. Depois que começamos a trabalhar, fomos à justiça e "liberamos" nosso pai da árdua obrigação de alimentar os filhos menores (ainda).
Desde muito cedo aprendemos que devemos trabalhar para sermos pessoas íntegras e independentes. Apesar de todo o desprezo do nosso pai, amávamos ele... mas em nada na minha vida eu me sinto devedora de gratidão à ele. O pouco que conquistei, devo a Deus e a minha mãe, Nina, que sempre me ensinou a ser uma mulher livre e independente de qualquer pessoa, mesmo que fosse meu próprio pai. Uma vez eu lembro que estávamos voltando da praia (Waltinho, nosso pai e eu) discuti com meu pai no carro, pois ele se recusava a ajudar pagar meu curso de inglês. Eu fui respondona (como sempre, Graças a Deus) e ele parou o veículo e me expulsou do carro. Eu tinha 11 anos. Puxei o Waltinho pra fora do carro também (o irmão é MEU)... e tivemos que andar bastante pra chegar até a casa da tia Armida. Depois daquele dia, minha mãe nunca mais deixou que eu saísse com nosso pai, pelo menos sem as moedinhas para pagar 1 passagem de ônibus (passaríamos juntos na roleta, Waltinho e eu) e uma ficha telefônica da Telerj... caso o dinheiro da passagem não fosse o suficiente pra gente voltar em segurança. Sabe o que eu sei ? Eu sei que quem pagou o meu curso de inglês foi minha mãe... com muito esforço. Ela era estagiária num escritório de arquitetura, e aos sábados, íamos com ela para o escritório... ficávamos sentadinhos num banquinho lendo revistinha, e minha mãe fazia limpeza no escritório onde durante a semana era desenhista estagiária. Passava o aspirador de pó, limpava os banheiros e o investimento desse dinheirinho, me trouxe profissionalmente onde eu estou agora. Ao meu pai, meu muito obrigada, pois o desamor dele me fez forte, o desdém dele fez de mim um "soldado". Mas minha mãe, fez de mim uma guerreira que jamais foge à luta. Nesse meio todo, tinha o Waltinho, um menino doce, que não nasceu com a minha petulância. Isso fez com que eu o protegesse... era meu irmãozinho... e eu era a irmã mais velha.
Assim fomos, seguindo adiante, aos trancos e barrancos. Se meu irmão não estudou, foi apenas porque ele não quis... pois nossa mãe pagava os cursos que podia, mesmo com pouquíssima condição financeira. Mas mesmo o fato do Waltinho nunca ter gostado de estudar, não fez dele uma pessoa inferior. Waltinho era um menino que conversava sobre tudo, e assim, como eu, começou a trabalhar muito cedo (graças a Deus). Nunca fomos encostados... até porque a vida nunca nos proporcionou essa opção. Os anos foram passando, logo nos tornamos adultos e fomos para o mundo. Minha mãe venceu no quesito nos alimentar, nos criar, e nos preparar para as vicissitudes da vida. Nunca disse que o mundo seria cor de rosa, e que numa esquina qualquer, eu encontraria um príncipe encantado. Minha mãe me direcionou para ser resistente, resiliente, um ser capaz de enfrentar os obstáculos e crescer sempre... ficar parada no meio do caminho, nunca poderia ser uma opção.
E durante toda minha vida, até hoje, 27/04/2018, eu continuo lutando pelo meu espaço, pela minha vida, pelo meu trabalho, pelo o que eu acredito, pela justiça que hoje eu busco pela vida/morte do meu irmão. E fui o apoio do Waltinho. Ele sempre soube que tinha em mim, um porto seguro, e que eu sempre estaria de braços abertos para amá-lo, acarinhá-lo, para protegê-lo. Meu irmão foi meu bebê, meu primeiro amigo; e ele me via sempre como a irmã mais velha que o resguardava. Era só ele me chamar. Era só ele me ligar. Meu irmão escolheu morar longe, mas essa distância nunca nos separou.  Apesar da saudade cortante, latente e infinita, eu agradeço todos os dias pela oportunidade ter vindo a este mundo como sua irmã. Eu lamento muito, mas muito mesmo, a maneira que meu irmãozinho foi embora deste mundo. Ele não foi respeitado. Ele não foi ouvido, foi tratado como um cachorro eutanasiado. Meu irmão queria viver, queria lutar... Waltinho é um guerreiro... e guerreiros jamais fogem à luta. O que restou,  são as lembranças de uma vida dura, mas uma vida que fizemos ser maravilhosas lembranças das nossas brincadeiras, da nossa infância e da nossa juventude. Isso, ninguém pode tirar de mim. Os abraços, as mãos dadas em oração no hospital onde praticaram a eutanásia dele, vão ficar pra sempre no meu coração. A luta não vai acabar enquanto minha mãe, eu e a última pessoa da nossa família respirar. Ninguém é Deus, e ninguém tem o direito de decidir a hora que outra pessoa deve partir - ainda mais sem dar a chance de escolha ao doente. Waltinho sempre foi um menino bom, mas foi tolo ao deixar-se enganar... acreditou na pessoa errada. Mas para esse gesto, eu conto com a justiça Divina. Deus sabe de todas as coisas, e escolhe a recompensa dos ímpios.

Eu sei que eu sempre vou te amar... sua mãe, sempre vai te amar, tia Armida, tia Lamia, nossa família sempre vai te amar. Nossos amigos de infância, sempre vão te amar... Só que enquanto isso, Waltinho, a saudade vai machucar todos os dias, não tem jeito... dói em mim, na nossa mãe, na nossa família, no silêncio que cala o desespero por NÃO ter tido o direito de me despedir de você. Você tem família, meu irmão... alguém cuidou de você, te amamentou, te ninou, te ensinou a andar e a falar. Eu brinquei com você, vivi os melhores anos da vida de qualquer ser humano ao seu lado. Eu desprezo veementemente a crueldade das pessoas que o afastaram de mim. À essas pessoas, meu mais profundo sentimento de nada, de vazio, vácuo, zero... Que Deus tenha piedade das maldades que fizeram. Eu só tenho as melhores lembranças, os melhores abraços, seu cheirinho de sabonete phebo e o quentinho das suas costas magrinhas, enquanto eu te aninhava em meu peito, e rezava contigo. Meu querido irmão, recebe pra sempre e a todo momento, meu amor infinito, todo meu carinho e cuidado. 

Nunca eu vou deixar de ser sua irmã mais velha, eu nunca vou deixar de te amar e sempre que você precisar, sabe que é só me chamar.

Quanta saudade, Waltinho. 
Meu Senhor, dái-nos forças!


quinta-feira, 26 de abril de 2018

http://antonianodiva.com.br/efemerides/e-preciso-deixar-ir-embora/ - 455 DIAS QUE MEU IRMÃO SE FOI

E hoje, faz mais um mês sem você, Waltinho. Quanta dor, quanta saudade, como dói.
455 dias que você partiu, 457 dias desde meu último abraço, meu último beijo... Dor.
Lendo sobre luto, para entender e viver meu luto, encontrei esse texto lindo, que re-posto aqui. Um relato de uma irmã, que também ama muito o seu caçula.

Obrigada, Antônia.

http://antonianodiva.com.br/efemerides/e-preciso-deixar-ir-embora/


É preciso deixar ir embora

Posted on 10 de novembro de 2015
Autor: Antônia no Divã - 57 comentários
 

Eu começo esse texto pedindo desculpas. Não pelo silêncio dos últimos dias, esse tão necessário durante meu luto. Mas à todas as pessoas que de alguma forma eu ofendi ou fui insensível ao escrever o texto “É preciso ir embora“. Algo que se deve entender aqui, é que eu sempre estive na posição de quem partiu, tão cheia de expectativa rumo a novas aventuras, e por isso não entendia em profundidade a dor de quem fica no porto ou aeroporto abanando em saudade – todo tipo de saudade. Hoje, no entanto, eu passo a entender a dificuldade de não ter perto dos olhos, quem mora no coração. E eu tive que aprender a me despedir da forma mais dolorida e irreversível. Não suficiente, tal lição veio através da pessoa que eu mais amei e amo nesta vida.

Há um mês eu perdi meu irmão. Encontrei-o inconsciente após o que indicava um mal súbito/convulsão, e depois de tentativas de soprar toda a minha vida pra dentro dele, minha ilusão dissipou-se ao ouvir meu pai, anunciando com a voz desesperançosa, que ele havia partido. “Morreu”, disse em choque. E com apenas uma palavra, um verbo estranhamente conjugado no passado, uma parte de nós, do nosso presente – de tempo e de Deus – também se foi. Rasguei minha garganta em gritos de discórdia e desespero. Era como se naquele instante o tempo tivesse parado, ressaltando cada detalhe da falta de sorte que nos esmagava contra o chão. Abracei minha mãe enquanto ela implorava para eu dizer que aquilo era uma mentira. Nunca vou me esquecer dos olhos dela, antes tão cheios de amor, e ali naquele momento, vazios. Um gosto amargo tomou conta da minha boca, da minha vida. O Leonardo havia ido embora pra uma viagem sem volta, cujo destino eu não tinha visto de entrada. Com o meu coração sangrando nas mãos, chorei por não ter me despedido, e desde então não se acordou um único dia que não tenha sido regado a lágrimas de saudade.

Eu nunca falei do Leonardo aqui por dois motivos bem sinceros. Diferentemente de mim, o Léo sempre foi muito comedido – nada como a irmã que nunca teve papas na língua pra tornar o privado, público. E eu sempre respeitei isso. Além do respeito, a incapacidade de traduzir em palavras o que meu irmão significa pra mim. Já soltei o verbo sobre minha mãe, pai, sobre os irmãos gêmeos, minhas melhores amigas. Nunca sobre o Leonardo, e talvez apenas para o Leonardo. A dificuldade possivelmente está no fato de que ele personifica (ainda no presente) todos estes papéis. Meu irmão, meu melhor amigo, meu responsável, meu pupilo, meu protegido, meu confidente, meu filho, meu pai. Minha alma gêmea. Alguém cujo meu coração sempre bateu em sintonia, desde os primeiros anos da infância. Dono do meu amor maternal e fraternal coexistindo. Guardião da melhor parte de mim. Ser feliz ao lado do meu irmão sempre foi fácil. E se eu fui destemida a vida toda, era porque com ele ao meu lado, eu nunca tive nada a temer. E isso tudo mudou.

O luto da maior perda da minha vida trouxe a urgência de aceitar uma despedida sem qualquer preparo e em praça pública. Com sua partida tão antecipada e não anunciada e tendo ele passado mal dentro de casa – vieram as perguntas. “Como e por que ele foi embora?” e nós não sabíamos responder, ninguém sabia. Muito embora o Léo tivesse passado mal outras duas vezes neste ano, ambas resultando em convulsões, nenhum exame apontava qualquer alteração ou falência. A causa declarada no óbito como indeterminada, potencializou nossa dor, fez ecoar a nossa impotência frente à fragilidade da vida e alimentou uma culpa irracional constante – “o que aconteceu?”; “por que não deu tempo de fazermos mais exames?”; “como podíamos tê-lo salvo?” e lógico “queria ter ido no lugar dele”. Frente à falta de respostas, não demoraram muito para os abutres levantarem suas hipóteses infundadas, fomentadas pela curiosidade mórbida do ser humano e completo desconhecimento da pessoa que meu irmão era – uma pessoa alegre, bondosa e inteligente. Um futuro psiquiatra promissor, vivendo possivelmente a melhor fase da sua vida através da formatura de medicina no mês de dezembro, o início de uma bolsa de PhD, um visual novo lindo que finalmente combinava com sua personalidade e as novidades alegres trazidas pela maturidade. O meu irmão era a favor da vida, e fã nº1 da dele, e ouvir falácias supondo o contrário neste momento de despedida foi como perdê-lo duas vezes.

O aviso do ocorrido postado pela família no seu perfil do Facebook foi dito “mal escrito” e “inadequado” – agora me explica, existe jeito certo? Tem etiqueta ou tutorial para este tipo de despedida? Com que estrutura (de texto ou emocional) se notifica o fim da vida de um amor? Em meio ao nosso drama, ainda houve quem reivindicou viuvez de forma pública, sem nunca ter conhecido meu irmão, num ato desesperado de 15 minutos de fama em cima da dor alheia, para uma plateia de desinformados que bateu palmas para um amor que nunca existiu ou existiria – ao menos não aquele, eu é que sei. Era como se em meio à partida do meu irmão, tivéssemos ficado encarregados de toda a bagagem que ficou pra trás, não dele, mas impertinentemente a dos outros. Tudo tão público e incompatível com generosidade do meu irmão. Logo ele que preservava tanto sua privacidade e a dos outros. Eu me culpei por falhar com meu irmão no fim de tudo – eu fui calada pela dor da perda durante dias e não consegui protegê-lo de todo e qualquer mal, ainda que tratando-se de sua memória.

“Você sempre sabe como cuidar de mim”, o Léo me disse dias antes de partir. E talvez seja por isso que eu esteja tão perdida agora. Minha vida ganhou sentido no dia em que o Leonardo nasceu, e como irmã mais velha me pareceu linda a tarefa de sempre zelar por ele. E eu zelei. Quando puxava a cama dele pra perto da minha quando ele tinha medo de dormir sozinho. Quando saímos de casa juntos, para habitar um lugar neutro durante o divorcio dos nossos pais. Quando fiquei ao seu lado após uma cirurgia, para só sairmos do hospital se fosse juntos. Quando ele teve dúvida em relação a fazer e seguir com a medicina. Estive ao lado dele pra dar mijada e pra brigar quando ele não se cuidava – única razão pela qual a gente brigava. Para dar apoio em qualquer decisão. “Irmã” (como ele me chamava) sempre foi o meu título mais honroso e que definiu quase tudo do meu caráter até hoje. A minha existência sem a do Leonardo, me parece uma incoerência da vida, um engano do destino. É como se eu fosse um par de meias que perdeu o pé esquerdo – sem propósito, guardada numa gaveta escura. Uma porta trancada sem a chave.  “Avião sem asa, fogueira sem brasa”. Como ressignificar?

“É preciso deixar ir embora” – Frase proferida diversas vezes nos primeiros dias de luto, antes repetida como um conselho maldito, e hoje, ordem para o meu primeiro passo.

E é preciso deixar ir embora.

Hoje começo a entender que mais difícil e importante que aprender a ir embora, é aprender a deixar alguém partir. Seja essa partida temporária, com reencontros confortantes. Seja uma partida eterna, como a do meu irmão. E sei que só existe UM conforto para toda e qualquer separação – viver intensamente as pessoas que amamos durante o tempo que se tem. A ordem é nunca deixar nada pra trás. O Léo foi coautor de cada uma das minhas histórias. Eu vivi intensamente o meu irmão. Amei-o todos os dias da minha vida, disse e demonstrei esse amor, mesmo quando discordávamos. Eu celebrei o Leonardo a cada conquista, e ajudei-o em cada tombo. Então veja, eu não tenho nada pra me arrepender do nosso tempo juntos, porque ele foi aproveitado com cada batimento do meu coração.

Hoje também sei que o aprendizado de deixar ir embora é um período solitário, intransferível e demorado.  Haverá de deparar-se com a separação – temporária ou permanente – e obrigatoriamente fazer dela um período de ressignificação pessoal. Não importa a quantidade de pessoas que te rodeie, existirá por um bom tempo uma solidão latente, pois a ausência de qualquer pessoa – como a do meu irmão –  não pode e nem nunca será substituída. É intransferível porque por mais que meu pai, minha mãe, ou mesmo meus irmãos pequenos, estejam passando pela mesma perda, a nossa conexão com o Leonardo é única, e desta forma cada um de nós sente a dor e a saudade de uma forma também muito singular.  E não existe “tratamento” rápido. O processo anda a passos de formiga, todo dia é um desafio e o tratamento visa minimizar os sintomas da dor, mas nunca cura.

Ainda que solitário, intransferível e demorado, permitir que outras pessoas estejam por perto dando apoio, é talvez o único jeito de tolerar esse momento de adaptação e ressignificação. E aqui não haverá surpresas – eu vivi isso – você saberá sem nenhuma dúvida, quem vai te ajudar de verdade, seja com o ombro, com o colo ou simplesmente compartilhando do teu silêncio. E fomos sortudos em ter uma legião de anjos ao nosso lado durante o último mês, nos segurando sempre que a dor foi mais forte, e por eles temos uma gratidão que não pode ser traduzida em palavras.

Hoje sei que deixar ir embora é importante em respeito aos objetivos de quem está de partida ou quem já partiu. Se for por vontade, destino ou “porque Deus quis” (“aspas” aqui porque ainda estou de mal com Ele). Ir embora é etapa importante da vida de uma pessoa, e sei que não cabe a ninguém questionar as razões. Aprendi que não posso ser âncora na evolução pessoal ou espiritual de ninguém. E também sei que essa despedida não pode ser uma âncora na minha vida – não porque devo qualquer coisa ao meu irmão, mas porque a felicidade é um compromisso que eu assumi comigo mesma há muito tempo, o que sempre foi motivo de orgulho pra o Leonardo.

É preciso deixar ir embora porque tudo na vida é transitório, e eu confio no tempo – e somente nele – para me ajudar a conviver com a dor da saudade.  Entendo que não existe outro caminho que o caminho do meio – não tem como desviar ou contornar esta etapa de despedida/luto, é preciso encarar todas as suas fases. E para estes momentos não almejo ter força, mas coragem – porque viver além da despedida, exige coragem permanente. E aqui reforço o pedido de desculpas que fiz no início deste texto, se minimizei ainda que sem querer, a complexidade de uma despedida. Porque é preciso coragem para quem vai e também para quem fica. Então sempre que houver medo, dúvida ou tristeza – e vai acontecer muitas vezes – que minha família, eu e todas as pessoas que precisam, possamos ter coragem para perseverar.

É preciso deixar ir embora. Nas etapas da vida, e também na passagem para o outro lado – passagem essa, que talvez seja a única, que todos nós já temos reservada.

Fim da sessão.

Nota para o meu irmão:

Leuo, eu sei que tu não lias o meu blog (“eu não quero ler tuas sacanagens!”) e que tu deve ter coisas mais importantes pra fazer onde tu estiveres. Lamento “quebrar nosso sigilo”, mas falar em ti passou a ser a única forma de te sentir mais perto – então eu ainda vou falar muito em ti. Esse com certeza não é o texto que tu merece, e creio que eu jamais serei capaz de escrever algo a tua altura. Ainda assim que fique registrado aqui também, que foi o maior privilégio e honra estar ao teu lado neste plano e te agradeço por ter me escolhido para esta viagem – curta sim, mas cheia de amor e lindas memórias. Agradeço também porque sei que, assim como em outras viagens que fizemos, tu vais reservar os melhores lugares aí em cima, para o dia que estivermos lado a lado outra vez. Até lá, vou acumular milhas de felicidade e bondade por nós dois. Eu prometo.



Antônia também é um pouco de mim...
Léo, também um pouco do Waltinho.
Curioso o quanto essa postagem me tocou, lá no fundo do coração. O amor é o mesmo, do tipo divino, lindo e único, especial.
Como eu te amo, meu irmão. E como eu sei que esse amor é verdadeiro, assim como Antônia e Leo, Andreia e Waltinho e tantos outros irmãos que foram separados da vida, sem a gente entender o "porque". Fica com meu amor, meu irmão... meu bebê, a melhor parte de mim, meu primeiro amigo, minha mais preciosa herança. Te amo sem fim.

Andréia descobrindo que tinha um irmão que era "só dela".
setembro 1974

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Só pra você saber que eu ainda tô por aqui...


Beyoncé - If I Were A Boy (Legendado/Tradução)

É preciso ir embora

É preciso ir embora

Texto fantástico do blog Antônia no Divã.

"É preciso ir embora.

Ir embora é importante para que você entenda que você não é tão importante assim, que a vida segue, com ou sem você por perto. Pessoas nascem, morrem, casam, separam e resolvem os problemas que antes você acreditava só você resolver. É chocante e libertador – ninguém precisa de você pra seguir vivendo. Nem sua mãe, nem seu pai, nem seu ex-patrão, nem sua pegada, nem ninguém. Parece besteira, mas a maioria de nós tem uma noção bem distorcida da importância do próprio umbigo – novidade para quem sofre deste mal: ninguém é insubstituível ou imprescindível. Lide com isso.
É preciso ir embora.
Ir embora é importante para que você veja que você é muito importante sim! Seja por 2 minutos, seja por 2 anos, quem sente sua falta não sente menos ou mais porque você foi embora – apenas sente por mais tempo! O sentimento não muda. Algumas pessoas nunca vão esquecer do seu aniversario, você estando aqui ou na Austrália. Esse papo de “que saudades de você, vamos nos ver uma hora” é politicagem. Quem sente sua falta vai sempre sentir e agir. E não se preocupe, pois o filtro é natural. Vai ter sempre aquele seleto e especial grupo que vai terminar a frase “Que saudade de você…” com “por isso tô te mandando esse áudio”; ou “porque tá tocando a nossa música” ou “então comprei uma passagem” ou ainda “desce agora que tô passando aí”.
Então vá embora. Vá embora do trabalho que te atormenta. Daquela relação que você sabe não vai dar certo. Vá embora “da galera” que está presente quando convém. Vá embora da casa dos teus pais. Do teu país. Da sala. Vá embora. Por minutos, por anos ou pra vida. Se ausente, nem que seja pra encontrar com você mesmo. Quanto voltar – e se voltar – vai ver as coisas de outra perspectiva.
As desculpas e pré-ocupações sempre vão existir. Basta você decidir encarar as mesmas como elas realmente são – do tamanho de formigas."

http://antonianodiva.com.br/efemerides/e-preciso-ir-embora/


Perder-se em si



Ela não olha porque não quer.
Ela não olha porque não pode perder-se em quimeras conflitantes com seu cotidiano ainda mais conturbado. 

Mas anseia pelo toque, por renovar o gosto que guardou em sua boca, num ato de insanidade, um grito sufocado de desejo, de vontades que não podem ser extintas.

Fica o sentimento contido, limitando o natural que emerge de dentro de si. É loucura unilateral... um atentado, uma autognose, suas expectativas e principalmente a sua fé, testando até onde o espírito aguenta o peso da carne. 

Ela só queria ser feliz, ainda que pouco, ainda que infimamente... queria provar novamente das belezas da vida, sem limitações, sem pontuações sobre o que deve ou não sentir.