sexta-feira, 5 de maio de 2017

Sobre a dor de perder um irmão - Walter Sieczko dos Santos

A visão escurece e o coração bate descompassado em seus ouvidos. É possível ouvir a própria respiração, o ar pesado, entrando com dificuldade nos pulmões. "Não acredito"  é o primeiro sentimento processado na mente... e de repente, tudo muda, o que era antes, simplesmente se dissipa... nada mais é conhecido e a paisagem do que é a vida, muda para um panorama indefinido. 

Não há o que esperar para o próximo segundo, o chão desaparece embaixo dos meus pés, a visão se torna turva, o mundo de repente se mostra nebuloso, falta então a clareza de saber onde estamos.. o quê? Como assim? Não entendo... O que está acontecendo? Não há como saber nosso papel nesse instante; turbilhão de imagens e sentimentos... Não há como saber à direção que estamos indo - ou vindo. 

Á frente, um abismo sem fim, dor, saudade, dó, medo, indecisão, vontade de gritar e uma moleza nas pernas... Chega no instante seguinte a sensação que estamos ficando loucos, e ainda que tenhamos fé, questionamentos diários nos perseguem nos próximos dias. Somos colocados em prova. E nos damos conta, do quanto somos frágeis. A negação dá espaço para a interrogação:  Por que? Por quê, meu Deus? Por que meu irmão mais novo se foi desta vida antes de mim? Por quê? A primeira noite é tensa, pesada, não há como fechar os olhos e continuar respirando, sabendo que nosso primeiro amigo, nosso sangue, nosso irmão, nosso companheirinho de toda uma vida não está mais aqui neste plano, dormindo, vivendo, respirando. 

O dia seguinte ainda é pior... Ninguém nos fala que foi tudo um pesadelo, o ar fica ainda mais difícil de ser respirado. Ainda que a morte fosse esperada, por uma doença difícil e cruel, sempre mantemos a fé e a esperança de um milagre. Sempre! sempre mantemos a esperança de uma melhora. Não temos como quantificar a dor da perda de um irmão, seja por doença, acidente, violência, ou uma morte súbita, sem antecedentes... a dor é a mesma, igual. Não estamos preparados para a perda de um ente querido, um irmão ou irmã, mais jovem que nós. Dói... dor latente e sem explicação do porquê dói no físico e na alma. Igual. 

Passam as semanas, e a dor, continua aumentando, juntamente com uma saudade que vem de dentro. Já enlouqueci? Que desespero ter o entendimento que nunca mais vou abraçar meu irmão, que nunca mais vou ouvir a sua voz. Nos volta então a esperança de um dia nos reencontrarmos... mas essa esperança não minimiza a dor da perda e a saudade que cresce exponencialmente no correr dos dias.

A rotina deve ser retomada... mas mesmo assim, ficamos impossibilitados de focar nos afazeres cotidianos... esquecemos tudo, ficamos aéreos. No trabalho, existe a tentativa em vão de ler e analisar relatórios. Vemos, mas não enxergamos, parece que a mente não processa as informações corretamente.Tudo escapa ao entendimento... Dor, saudade, perda, e agora também medo e estresse de não conseguir manter a qualidade profissional de antes. Junta tudo. Misturam-se sentimentos. Vida emocional e vida profissional, incluindo também a vida afetiva, familiar. Temos a certeza que nunca mais seremos o que já fomos antes. Impossível. Uma tristeza concreta se escondendo atrás dos dias... E as pessoas, amigos, familiares, colegas de trabalho, perguntam quando vamos voltar a viver... Vivos estaremos, mas não seremos inteiros. Nunca mais seremos inteiros. Essas pessoas não conseguem entender que nunca mais seremos as mesmas pessoas, e que nem o tempo, nem o passar dos anos, conseguirá nos refazer. Somos amputados! Verdadeiramente amputados... assim como se amputa um membro... esse membro não vai crescer de novo. Até existem próteses bem intencionadas... mas nelas não correrão nosso sangue. O meu e o seu. Essa prótese não será aquecida com o calor da sua presença, um paliativo que nos manterá vivos até o fim dessa estrada. Enquanto isso, seguiremos ocos, tentando preencher esse vazio com as lembranças de tudo que vivemos. 

Em tudo, sempre haverá você, irmão.
Em todos os lugares, haverá a presença da tua ausência, uma irmã sem pedaço. Uma pessoa "meio inteira". Se existe neste mundo uma dor maior ou igual a dor de perder um filho, asseguro que essa dor é a dor de perder você, Waltinho. Perder você, foi perder o meu presente construído, não ter o agora, e por consequência, é perder meu amanhã. Em meu futuro, haverá sua falta. Amanhã, também não ouvirei sua voz, suas piadas, nossas brincadeiras, coisas tão nossas. Como eu seguirei sem tua presença, irmão?

Sempre me imaginei dando meus conselhos à você. E eu era uma das poucas pessoas a quem você ouvia. Longas conversas ao telefone. Sempre teve meu amparo, porque eu sempre tive amor e prazer de amparar você. Eu me sentia tão bem em ouvir você e ajudar como eu pudesse. Você e eu, Eu e você, irmãos de uma vida toda. E agora, eu me vejo em pedaços. 

Não consigo dar nome ao que sinto. Não existe palavra para isso. Eu só consigo escrever que eu sou a Andreia Sieczko, irmã mais velha do Walter Sieczko dos Santos. Fico repetindo isso como um Mantra, para eu não esquecer o título que a mim corresponde. Título indisponível a qualquer outro ser vivente, porque irmã, você só teve uma. Também é irrevogável... ninguém deixa de ser irmã. Nasci irmã, e vou morrer irmã... Estado de Direito, um princípio jurídico que confere a mim, irretratabilidade e a irrevogabilidade do feito. Blindado no Céu e na Terra, como proteção do que foi agendado previamente no plano astral. Inegociável, definitivo e jamais será anulado. Você é meu irmão, estando aqui ou em outro plano.  E meu amor por você continuará sendo o mesmo, você estando aqui ou aí. Por isso, algo bem lá no fundo do meu peito, me diz que você recebe esse amor, sente essa energia e todo o meu carinho.

Mas separação física me faz mal.
Conviver com a ausência, é terrível.
Mas recebe por favor o meu amor.
E não se esqueça nunca o que você representa pra mim, porque teu lugar é único, e sua ausência nunca poderá ser preenchida.

Te amo, meu irmão.


Andreia Sieczko, irmã do Waltinho.


2 comentários:

  1. Sei muito bem o que você passa. A sete meses perdi meu irmão e me sinto exatamente da mesma maneira, sem chão, sem expectativas, um vazio imenso e uma dor que não nem como descrever.

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